segunda-feira, 19 de abril de 2010

Fomos apanhar laranjas



Num recanto de quintal, numa eira junto à casa, mora a mais redonda das laranjeiras. Cresceu com sorrisos e brincadeiras de duas gerações de crianças. Cresceu com os braços estendidos para o sol e para a janela do meu quarto… Ali permanece perfumada e verde, reflectindo e espalhando energia,
num convite a apanhar laranjas…

Nenhuma outra árvore do mesmo quintal saberá de tantas emoções… muitas festas, alguns cansaços, desilusões, conversas, pensamentos, e decisões geniais de idealista principiante, como eu,
mas com o bom senso de apanhar laranjas

Era dia de Páscoa,
subimos então, em traje de gala, com sapatos de salto apoiados nos troncos, braços estendidos… os verdes e os nossos…
Num pequeno desafio, uma cumplicidade, um convívio familiar…
e apanhámos laranjas

Se existe uma flor de eleição, será com certeza a flor de laranjeira,
Sem querer saber de tradições, ela é uma flor divina, áurea, poderosa e pura
enche-se de luz e cor, até ser uma espectacular laranja!

Poderosa no aroma e no sabor é doçura contagiante…
É fascínio da geometria, capaz de transformar-se em generosos gomos…
Ousada, fresca, gratificante e universal,
é apenas uma laranja.

E se assim me encanta uma laranjeira,
que direi da oliveira?
Madalena

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ler com a Cinderela

José era um adolescente normal, catorze anos, simpático, bem disposto e fascinado pela Cinderela.
Muitos anos de escola e nada de saber ler! Literalmente.
Nas aulas desenhava cinderelas lindas, elegantes, de vestidos muito coloridos e sempre compridos, tal qual a estória clássica que conhecemos. E assim eram todas as cinderelas, de corpo inteiro, ao tamanho da página, em todas as folhas de cada caderno, em todos os cadernos.
_ Tem uma fixação pela Cinderela (diziam os meus colegas)!
             Quando lhe perguntávamos o que queria ele aprender na escola, respondia “quero aprender a ler a Cinderela”.
Nesse ano, eu era docente de Educação Especial e fazia apoio individual. E fiz-me ao caminho…  Para este aluno tinha que ser um método global e, se um método de leitura tem que ser significativo e motivador, há-de haver o método-cinderela!!!  Foi o que pensei.
Fomos para a Biblioteca, peguei na versão da estória que me pareceu mais simples e vamos a isto! Inventei o método para ele e com ele.
À medida que eu lia, íamos fazendo o resumo: criávamos a frase eu escrevia, lia e ele repetia lendo e escrevendo. Depois outra frase, o mesmo procedimento… construindo a frase, ouvindo a leitura, repetindo e escrevendo… Terceira, quarta e por aí fora, de modo a que ele ouvisse ler, lesse e escrevesse cada frase nova e repetisse sempre as frases anteriores…
Foram precisas três ou quatro sessões para que compreendesse o mecanismo da leitura. Depois fomos às sílabas, e nem foi preciso ir às letras, que essas, ele já conhecia de há muito tempo.
Não se imagina a felicidade que vivia por, finalmente, sentir que sabia ler (a Cinderela, claro). Foi um trabalho fabuloso!
Depois desta, esgotámos todas as versões que havia na escola, incluindo “a gata borralheira”, que  descobriu ser a mesma.
_Pronto, agora já sabes ler tudo – disse-lhe.
Ele não acreditava. Dizia que só conseguia ler a Cinderela.
Ainda com alguma ajuda, leu “o gato das botas”, depois com cada vez mais autonomia e muita determinação veio”o alfaiate valente” “o senhor forte”, “o vizinho de cima”… sei lá!
Depressa se entusiasmou por temas como ambiente, saúde etc..  Foi magia!
Tornou-se o melhor cliente da nossa biblioteca e o leitor mais entusiasta que conheci até hoje. Era um gosto vê-lo, sempre de livro debaixo do braço, que nem punha na mala, para poder aproveitar todos os tempos livres.
Nunca mais o José falou da Cinderela.
Finalmente foi para o 2º ciclo… e mais não sei.
Madalena (2010)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Sombras pálidas esbatidas

Em plena Serra de Sintra, ao cair da tarde, deslizando numa estradinha ladeada de pequenos arbustos, grandiosas árvores e enigmáticos troncos, seguimos procurando uma saída, talvez pela Lagoa Azul.

Vamos subindo, curva após curva, num emaranhado de sombras, escutando apenas o murmurar das folhagens ao leve vento que chega e parte…

Uma intensa, branca e enorme luz invade todo o espaço…

Aqui estamos nós, apenas nós, no meio da claridade ofuscante, de um opaco lindo, claro, luminoso e brilhante… e mais ninguém no coração da serra. Somos apenas quatro sombras esbatidas e pálidas que começam a confundir-se com todas as outras.


Achas que nos perdemos?

Não. Vamos devagar!

O que vês?

Apenas luz intensa, brilhante, branca.

Tens medo?

Não.

Quem está aí?

Vou ver… Alguma coisa a rodar…

Oh, anda cá, onde estás? Já não te vemos!


Começa a vislumbrar-se então uma imagem plena de claridade, envolta num imenso manto que oscila no denso espaço de luz. Ouve-se, no meio do nevoeiro, primeiro um pequeno e tímido grito, depois um assobio forte, longo e quase metálico, que ecoa por toda a serra.


Era um ciclista que descia… e era eu a brincar.


Oops… a Serra tem destas coisas!

(…e outras também, ouvimos dizer)!


Madalena

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Se existe Deus

Se existe Deus, está nas Plantas…

…e assim, posso dizer que adoro Deus.

Como é que as plantas nos completam tão perfeitamente e nós nem lhes ligamos.

Em cada momento das nossas vidas ganhamos e perdemos energia. Há situações em que claramente nos sentimos ganhar e, obviamente, se estivermos atentos, percebemos quando a estamos a perder.

Sem entrar em detalhes sobre a forma como se ganha ou perde energia nos lugares que frequentamos, acontece que nos locais de trabalho, em locais públicos, em família, na escola… ocorrem transferências de energia (ganhos e perdas).

Precisamos de energia saudável, precisamos de jardins… terra... beleza… harmonia… árvores!

Perguntamos por que motivo há jardins fechados? Por que razão ninguém passeia no Parque dos Poetas, por exemplo?

Que tal a valorização de verdadeiras zonas verdes (e não estamos a falar de relva)?

Seremos mais perfeitos se crescerem árvores nos espaços escolares?

Teremos mais sensibilidade para aprender Humanidade?

Viveremos o dia-a-dia com energia mais positiva?

De todos os seres, as Plantas parecem ser os que mais se aproximam daquilo que, convencionalmente, conhecemos por Deus. As Plantas respiram e alimentam-se respeitando os outros seres. Facilitam as suas vidas, servem de abrigo e, como nenhum outro, produzem o que é fundamental, precioso e comum a todos, o oxigénio. Não lutam nem fogem… Provavelmente até nos perdoam os abusos…

Elas ajudam a criar laços.

Parece fácil acreditar neste deus vegetal, vivo, poderoso e universal.

Madalena