segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ler com a Cinderela

José era um adolescente normal, catorze anos, simpático, bem disposto e fascinado pela Cinderela.
Muitos anos de escola e nada de saber ler! Literalmente.
Nas aulas desenhava cinderelas lindas, elegantes, de vestidos muito coloridos e sempre compridos, tal qual a estória clássica que conhecemos. E assim eram todas as cinderelas, de corpo inteiro, ao tamanho da página, em todas as folhas de cada caderno, em todos os cadernos.
_ Tem uma fixação pela Cinderela (diziam os meus colegas)!
             Quando lhe perguntávamos o que queria ele aprender na escola, respondia “quero aprender a ler a Cinderela”.
Nesse ano, eu era docente de Educação Especial e fazia apoio individual. E fiz-me ao caminho…  Para este aluno tinha que ser um método global e, se um método de leitura tem que ser significativo e motivador, há-de haver o método-cinderela!!!  Foi o que pensei.
Fomos para a Biblioteca, peguei na versão da estória que me pareceu mais simples e vamos a isto! Inventei o método para ele e com ele.
À medida que eu lia, íamos fazendo o resumo: criávamos a frase eu escrevia, lia e ele repetia lendo e escrevendo. Depois outra frase, o mesmo procedimento… construindo a frase, ouvindo a leitura, repetindo e escrevendo… Terceira, quarta e por aí fora, de modo a que ele ouvisse ler, lesse e escrevesse cada frase nova e repetisse sempre as frases anteriores…
Foram precisas três ou quatro sessões para que compreendesse o mecanismo da leitura. Depois fomos às sílabas, e nem foi preciso ir às letras, que essas, ele já conhecia de há muito tempo.
Não se imagina a felicidade que vivia por, finalmente, sentir que sabia ler (a Cinderela, claro). Foi um trabalho fabuloso!
Depois desta, esgotámos todas as versões que havia na escola, incluindo “a gata borralheira”, que  descobriu ser a mesma.
_Pronto, agora já sabes ler tudo – disse-lhe.
Ele não acreditava. Dizia que só conseguia ler a Cinderela.
Ainda com alguma ajuda, leu “o gato das botas”, depois com cada vez mais autonomia e muita determinação veio”o alfaiate valente” “o senhor forte”, “o vizinho de cima”… sei lá!
Depressa se entusiasmou por temas como ambiente, saúde etc..  Foi magia!
Tornou-se o melhor cliente da nossa biblioteca e o leitor mais entusiasta que conheci até hoje. Era um gosto vê-lo, sempre de livro debaixo do braço, que nem punha na mala, para poder aproveitar todos os tempos livres.
Nunca mais o José falou da Cinderela.
Finalmente foi para o 2º ciclo… e mais não sei.
Madalena (2010)

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